29 mayo 2006

A CABRA

Falei com uma cabra.
Estava sozinha no prado, estava presa.
Saciada de erva, molhada
pela chuva, balia.

Aquele monótono balido era irmão
da minha dor. Eu respondi-lhe, a princípio
por brincadeira, depois porque a dor é eterna,
tem voz e não muda.
Era esta voz que sentia
gemer numa cabra solitária.

Numa cabra de rosto semita
sentia queixarem-se todos os outros males,
todas as outras vidas.

(UMBERTO SABA)